Como assim meus sentimentos não têm direção?
Por sorte, chovia... e chuva sempre me faz ouvir mais e falar menos, mesmo que discorde, mesmo que revolte, mesmo que me incomode... eu ouço, por sorte, apenas ouço...
Que fique claro, meus sentimentos (os que residem em mim) sabem bem pra onde desejam seguir ou conhecem bem o lugar onde querem continuar estatizados, agora não tenho como direcionar aquilo que não existe...
Acho que era isso que eu argumentaria caso não chovesse... o que sinto hoje, o que reside em mim agora, tem bem definidos seus destinos, já aqueles sentimentos que “eu também espero” que cresçam em mim, precisam, neste momento, de semente, adubo e cuidados diários para que germinem, daí então, uma vez nascidos e solidificados, eu defino seus destinos...
Sério, não uso as experiências passadas como escudo pra me proteger das futuras flechas, mas sim, como mira para agora acertar os alvos com maior precisão. É óbvio: a experiência só tem sentido se usada a nossa favor.
O problema de ser mulher de cidade pequena e envelhecer solteira, de se relacionar com várias pessoas e todas essas vezes quebrar a cara, é que, na maioria das vezes, esperam de você o perfil “estou em busca” e se assustam quando descobrem que você faz mais o tipo “vou deixar rolar”.
Entendam, estar fora dos padrões esperados pela sociedade não te obriga ao desespero rotulado... algumas pessoas simplesmente não nascem pra certas coisas e temos que ter sobriedade pra reconhecer e admitir para o que temos ou não talento...
O que quero dizer é que estou convencida que não nasci para esse tal de “amor conjugal”... Penso que eu seja demasiadamente reticente para isso...
Mas acontece que, contraditoriamente, acho linda essa coisa de amor eterno, incondicional, imortal e mais aquele monte de blá, blá, blá... por isso, ainda insisto, mesmo sem talento algum, me vejo dia a dia, errando as notas, tentando aprender o ritmo, buscando acertar o tom, querendo aprender a letra desse samba...
A minha diferença é que se não der, não deu... não vou viver infeliz porque não dei certo no amor... ah, mas não mesmo! Já dei certo em tantas outras coisas, descobri tantas outras vocações, sei ser feliz de tantas outras maneiras, que honestamente não vou ficar estagnada, vendo a vida passar e remoendo um passado de frustrações amorosas.
Acho mesmo que tem coisas que a gente tem que aprender a admitir que são lindas, singularmente deliciosas mas que, infelizmente – ou felizmente –, não são pra nós... mesmo que trate-se do tão esperado “amor”...
Tentemos viver sem desesperos, sem culpas, sem frustrações e, especialmente, sem pressa... levando a vida de forma bem suave e sendo feliz da maneira mais gostosa que se sabe ser...
Quem sabe inusitadamente, repentinamente, acidentalmente, subitamente, espontaneamente, facilmente, lucidamente, genuinamente, sutilmente, sinceramente, prazerosamente e o mais importante, reciprocamente, o amor não acontece em um desses carnavais da vida?
E mesmo se no fim a gente não conseguir fazer o samba, garanto que vamos ter tido incontáveis alegrias participando dos ensaios dessa festa...